Na Beira Alta, a curta distância de Tarouca, Ucanha reclama a legitimidade de entrar por direito próprio no mapa de Portugal. Há aqui um monumento único.
Não é difícil imaginar a existência de uma máquina do tempo através da qual fosse possível viajar para outras eras. Devidamente programada para recuar alguns séculos, encontraríamos a aldeia de Ucanha, não muito diferente do que é hoje, com as casas esconsas a aninharem-se em torno da ponte-fortificada que liga as margens do rio Varosa, num cenário marcadamente medieval. Hoje, graças a alguns restauros, o monumento conserva-se em óptimo estado de conservação, nem dando mostras de ter sofrido a passagem dos séculos, ao contrário do outro exemplar do género, a Ponte de Sequeiros, perto de Almeida, cuja torre ruiu e foi votada ao abandono. Tudo indica que a Ponte de Ucanha terá tido origem numa anterior estrutura romana, mas a forma que apresenta actualmente – o ponto mais alto é o central, tendo-se de subir primeiro e descer depois para atravessar de uma margem para a outra – foi erguida no século XII, conforme registam documentos de 1146. Se a ponte em si já é digna de registo, o seu carácter de exclusividade foi-lhe conferido no século seguinte, quando se ergueu, chegada à margem direita, uma torre fortificada, construída sob a égide do vizinho convento cisterciense de Salzedas, com a principal função de exercer portagem aos passantes. Sob a égide dos monges bernardos cistercienses do Mosteiro de Salzedas, fundado em 1167, foi criado este regime de cobrança de direito de passagem para sustentar a construção e manutenção do templo. Foi a primeira no país a exigir tal cobrança e só foi abolida em 1507 por foral de Dom Manuel I. Embora o carácter defensivo tenha permanecido ao longo dos tempos, a partir do momento em que deixou de obrigar a cobrança fiscal foi perdendo importância, paralelamente ao declínio que tomou conta do Convento de Salzedas. Hoje, no entanto, a ponte-fortificada mantém a dignidade de outros tempos, erguendo-se, orgulhosa, sobre as águas do Varosa, enquanto espera que os viajantes a descubram.








